O penoso e duro desterro de Juscelino Kubitschek em Paris.

JK no Exílio, o filme.

O penoso e duro desterro de Juscelino Kubitschek em Paris.

Juscelino Kubitschek de Oliveira, de origem humilde, sonhador, visionário, saiu de Diamantina, onde nasceu, dedicou-se aos estudos, à medicina, tornou-se patrono da urologia, … Achou que poderia mudar o país …  mudou. Em cinco anos fez o que normalmente só poderia ser feito em cinquenta. Muito conhecido como JK, é símbolo de uma época, os “anos JK”, um tempo de prosperidade, esperança, felicidade e vitórias, um tempo que deixa saudades naqueles que lá viveram. JK trouxe Oscar Niemeyer, Lucio Costa e vários outros que se tornaram ícones mundiais em suas especialidades. Construiu Brasília, criou universidades, industrializou e transformou o país. Não é exagero afirmar  que o Brasil pode ser classificado em “antes” e “depois” de JK.

Juscelino teve que lidar com situações extremamente complexas no mundo das relações políticas, para atingir suas metas. A política é um campo complexo e delicado. Nesta área não se conta com unanimidade, está mais para campo de batalha. Pelo que tudo indica, e contra o que muitos quiseram fazer crer, Juscelino sempre buscou agir com ética e honestidade. Seu caráter reto era um grande incômodo para os que almejavam seu posto. Despertou inveja e representou obstáculo para grupos oposicionistas.

Retornaria, certamente, em 1965, à presidência da República, caso pudesse disputa-la, já que sua popularidade era notória. Apenas uma ação drástica poderia impedir que isso acontecesse. Calúnia e difamação seria uma estratégia a ser usada por seus opositores. Acusar Juscelino de corrupção, enriquecimento ilícito e cassar seus direitos, bani-lo. Foi colocada em prática. Teve início na campanha de Jânio Quadros e culminou em 64, com a cassação de seus direitos políticos no governo Castelo Branco. Teve que abandonar seu país.

JK no exílio,  filme  que teve sua primeira exibição em Diamantina, no dia 12 de setembro de 2011, a convite do Presidente da Casa de Juscelino, Serafim Jardim, aborda o momento mais difícil da vida de Juscelino Kubitschek, um episódio até então inexplorado, praticamente desconhecido na história deste estadista. O documentário, idealizado por Carlos Alberto Antunes Maciel e dirigido por Charles Cesconetto, em parceria com Bertrand Tesson, apresenta um JK provavelmente nunca visto antes. Não mais aquele político de fraque e cartola, rodeado por multidões, em grandes ocasiões sociais, o fundador da grande capital Brasília, mas um Juscelino de pés descalços, de volta ao nível dos humanos, esquecido por muitos de seus antigos amigos, muitas vezes solitário e triste pelo afastamento da família, dos amigos, de seu povo e de seu país. Um desconhecido pelas ruas de Paris, sobrevivendo com a ajuda financeira dos poucos e fieis amigos que restaram, sendo vigiado pela polícia política francesa de De Gaule, morando em um modesto apartamento.

Cito, como exemplo, uma cena, que beira o tragicômico, na qual JK está dirigindo um velho carro amassado e é abordado por um policial que lhe pede os documentos. O militar pergunta a ele o que ele faz e Juscelino responde que já fez de tudo, que já foi médico, militar e foi até presidente da república. Neste momento o policial bate continência, pede desculpas e abre o trânsito para ele. Este episódio resume, de maneira sutil, o momento e a dimensão deste ser humano.

Apesar das dificuldades que enfrentava, vítima de grande injustiça, descobrimos que Juscelino dava curso à sua vida de forma digna, mesmo com os problemas financeiros, buscando poupar a família de seu sofrimento e, inclusive, tentando proporcionar àqueles que o visitavam em Paris momentos de alegria e descontração. Há, por exemplo, um episódio hilariante sobre um encontro casual com Salvador Dalí, ao acompanhar um amigo diamantinense que queria conhecer a noite da cidade luz.

Mas estes momento foram raros. O sofrimento de JK é revelado através de cartas que escrevia aos parentes ou através dos relatos de amigos que costumavam visita-lo em Paris, como é o caso de seu grande companheiro, Coronel Affonso Heliodoro, de seu primo Carlos Murilo, ou ainda de amigos como Arnaldo Niskier,  Carlos Heitor Cony e outros. Estes fiéis amigos foram fundamentais para que JK conseguisse enfrentar a difícil situação em que se encontrava. Para contextualizar o momento, o economista e historiador Ronaldo Costa Couto faz uma abordagem histórica e narra, em detalhes, a conjuntura na qual se deu a cassação e o exílio de JK.

A filha e o genro do ex-presidente, Maria Estela Kubitschek Lopes e Rodrigo Lopes, partiram, em 12 de Julho de 2010, a Paris, com a equipe do documentário, com a finalidade de revisitar o exílio de Juscelino e lá encontraram-se com a secretaria do presidente na época, Maria Alice Gomes Berengas, descoberta ha alguns anos pelo pesquisador brasileiro radicado na França, Carlos Alberto Antunes Maciel. O encontro foi emocionante e revelador. Maria Alice sofreu muito com a perseguição da polícia política francesa, teve seus documentos confiscados e nunca mais retornou ao Brasil. Ainda encontra-se exilada.  Secretária muito fiel, auxiliou JK na redação de suas memórias e foi uma companhia fundamental para o presidente Juscelino e dona Sarah. Após todos estes anos guardando os segredos, função primeira da secretária, decidiu revelar como era o dia a dia dos Kubitschek em Paris.

O filme apresenta cenas inéditas, recuperadas nos arquivos franceses, de JK, na época de seu exílio. Entrevistas do presidente, em francês, à tv, a chegada de Juscelino no aeroporto de Orly, o presidente visitando uma exposição de Oscar Niemeyer, uma visita às obras de Le Corbusier, o retorno ao Rio de Janeiro em 1965.

Como bem ressaltou o Dr. Celso Lafer, por ocasião da apresentação do filme JK no Exílio, em São Paulo, no mês de novembro de 2011, Juscelino só se sentia à vontade no Brasil. Viver, forçado, fora dele era uma dura provação. Foi um penoso desterro. Teve que conviver com a perda das condições de sustento da vida, com a privação da liberdade cívica, com a privação da convivência com os amigos, os familiares e o povo, com a dificuldade de encontrar a paz da alma, com a desonra de ver a sua reputação contestada e injuriada pela ação política do regime militar, com o cerceamento de sua liberdade da palavra pela ação dos serviços de inteligência, pois era vigiado dentro de sua própria casa e até mesmo de seu escritório. Suas cartas eram interceptadas e tinha que comunicar-se através de códigos.

Por sofrimentos similares também passaram praticamente todos os exilados políticos na época da ditadura instaurada em 1964. Este documentário é, portanto, além de uma homenagem ao grande presidente Juscelino Kubitschek e sua secretaria Maria Alice Gomes Berengas, uma homenagem minha, Charles Cesconetto, do professor Carlos Alberto Antunes Maciel e de Maria Estela Kubitschek Lopes a todos estes exilados.

JK no Exílio foi realizado com apoio do Governo Federal, através da Lei Rouanet, com patrocínio das transmissoras de energia elétrica TAESA e TBE. Além da exibição em Diamantina, já foi apresentado em Brasília, no Museu Nacional, a convite do Jornalista Silvestre Gorgulho, com apoio da Embaixada da França e do Instituto Histórico e Geográfico do DF, também foi apresentado em Florianópolis, na Fundação BADESC e na UFSC, em São Paulo foi exibido no auditório da Livraria Cultura, e no Rio de Janeiro, em 28 de novembro, no Museu da República, com a presença de grande e ilustre público, num evento patrocinado pela OAB do Rio.

O documentário JK no Exílio pode ser adquirido através do site da Livraria Cultura, ou do site do filme, www.filmejknoexilio.com.br, onde são disponibilizados diversos materiais e publicadas muitas informações sobre o filme.

Charles Cesconetto, em 27 de novembro de 2011.

Charles Cesconetto nasceu em Florianópolis, SC, em 26/01/1967. É formado em letras pela UFSC, viveu parte de sua adolescência na França, especializou-se em Direção de Fotografia Cinematográfica, área na qual atua desde 1985, estudou na EICTV, em Cuba, desde 2004 atua como diretor de documentários, é professor universitário na área de cinema, coordena o curso de Produção Multimídia da UNISUL e é Diretor da Geofilmes Produções.

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